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sábado, 19 de abril de 2014

2 anos de blog Coração Feroz - fanfic especial de aniversário!

Olá gente! E aí, como estão? Curtindo bem o feriadão da Semana Santa? 

Como vocês podem ver pelo título dessa postagem, hoje o blog Coração Feroz completa dois aninhos de vida! Ebaaaa!

Vamos comemorar, vamos comemorar!




Que tal uma fotinha do Joo Won para alegrar o meu dia? kkkk

Que lindinho! 

Bom, pessoal, o presente de aniversário desse ano é o mesmo que o do ano passado. No entanto.... Bem, vocês já devem estar cansados de saber que o meu tempo livre é curto e que ultimamente eu ando muitíssimo ocupada com meus trabalhos da faculdade (na verdade, esse ano eu mudei de curso na faculdade e agora estou estudando em período integral).

Eu queria muito que a fanfic especial de aniversário estivesse totalmente pronta hoje, mas assim como no ano passado, eu não tive tempo o suficiente para terminar a fanfic, na verdade, eu nem sabia muito bem o que iria escrever. 
Primeiro eu escrevi uma fanfic cujo enredo se passaria no Egito, mas acabei desistindo por que... Nem sei porque, apenas desisti. Depois pensei em escrever uma fanfic sobre Jack Frost e Elsa, mas acabei desistindo por que estava sem inspiração. Então, finalmente decidi escrever True love of mine. E é por isso que hoje também estarei postando apenas uma parte dela (é apenas o começo rsrs). Esse ano o tempo foi tão apertado que nem mesmo tive oportunidade de desenhar uma capa decente para essa fanfic, porém, fiz uma capa improvisada com uma imagem retirada da internet.

Sei que esse ano o presente está sendo mais "pobre" que no ano passado. Mas eu não queria que o aniversário do blog passasse "em branco", por isso, mesmo sem tempo e tendo um monte de trabalhos e pesquisas da faculdade para fazer nesse feriado, eu resolvi jogar tudo de lado por um momento e escrever uma fanfic.

Bom, por causa da pressa e da falta de inspiração, não tenho certeza se fanfic realmente ficou boa, mas eu espero que vocês gostem e fiquem curiosos para saber a continuação dela (que eu farei de tudo para postar aqui o mais breve possível).

Let's Go!


True Love of Mine



Era uma vez uma garota chamada Clara e um garoto chamado João. Eles nasceram em anos diferentes, dias diferentes e locais diferentes. No entanto, em algum momento de suas vidas, eles se encontraram.


Capítulo 1

Clara queria ser atriz, e João também. De alguma forma, enquanto Clara ensaiava seu monólogo para o teste de atuação, João, que estava do outro lado da sala de espera da agência de talentos, no meio dos outros aspirantes a atores, ouviu a voz de Clara. De tantas outras vozes, outros sons, a voz de Clara se destacou. 

João olhou para frente e viu, há alguns metros dali, uma garota de 17 anos, cabelos negros, baixa estatura e um pouco acima do peso “ideal”, com olhos lindos e penetrantes, além de um rosto tão perfeito e dotado de uma beleza extremamente exótica. ‘Quem é ela?’ Ele se perguntou.

No entanto, João já tinha uma barreira de preconceito erguida dentro de si. Não importava o quanto aquela garota o atraía, não importava o quanto seu rosto era iluminado e perfeito, para ele, que sempre foi o garoto mais popular de sua turma, que sempre teve aos seus pés as garotas mais lindas, magras e perfeitas, se apaixonar a primeira vista por uma “gordinha” era inaceitável.

Clara continuava ensaiando seu monólogo. Ela fazia caras e bocas muito engraçadas, e João, que a observava de longe, começava a rir como um bobo. Seu coração, por algum motivo, se enchia de orgulho ao vê-la atuando tão bem. Porém logo ele se dava conta de que ela era, na verdade, sua rival, e que não fazia sentido admirar a atuação dela. Mas... Porque João se sentia orgulhoso pelo sucesso de outra pessoa que poderia roubar seu sonho de ser ator? Porque João admirava uma pessoa que ele acabara de conhecer sem nem mesmo ter falado com ela? Por que João sentia seu coração vibrar e um sorriso se formar em sua boca quando ele estava olhando para ela?

Amor à primeira vista. Talvez.

Num pequeno instante, fração de segundo, Clara se desconcentrou, levantou seus olhos e eles se cruzaram com os olhos de João. O primeiro contato visual. Clara parou o seu monólogo definitivamente. Ela ficou completamente encantada por João. ‘Como pode existir no mundo um garoto tão bonito?’ Pensou ela.

Amor à primeira vista. Talvez.

João era moreno, tinha os olhos muito negros e os cabelos encaracolados. Seu rosto era um pouco quadrado, e suas feições muito másculas e atraentes para um rapaz de 19 anos. 

Clara já havia perdido totalmente o fôlego e a concentração quando uma voz feminina disse: ‘Clara Freitas, você é a próxima!’

João, que fingia não prestar atenção, pensou consigo mesmo: ‘Então esse é o nome dela! Clara Freitas!’

Dez minutos depois, Clara já saía da sala de testes e suspirava de alívio. Mais uma vez, seus olhos se encontraram com João, que secretamente estava esperando por ela. 

Desta vez a garota resolveu ser corajosa e sentou-se bem ao lado dele, iniciando a primeira conversa.

‘Oi... Então... Está nervoso para o teste?’ Perguntou ela, gaguejando.

‘Eu? Bom... Um pouco... O que aconteceu lá dentro, eles gostaram da sua atuação?’ Perguntou ele, um pouco encabulado.

‘Eles disseram que eu tenho uma veia cômica impressionante e que por isso o papel perfeito para mim seria o da amiga da protagonista’ Ela sorriu, mas seus olhos pareciam sem vida.

‘hum... Mas você não me parece muito feliz... ’ Disse João, percebendo que a garota estava triste com algo.

(suspiro) ‘Eu sei que não sirvo pra ser protagonista... Por que eu não sou magra... ’ Respondeu ela, quase num sussurro de lamentação.

(João não sabe o que dizer nesse momento, então ele fica em silêncio).

(segundos depois) 

‘Clara... Seu nome é Clara, não é? Eu acabei ouvindo seu nome sem querer quando aquela mulher te chamou’ Disfarçou ele, tentando não parecer tão interessado.

‘Se você já sabe meu nome, então eu tenho o direito de saber o seu nome também, certo?’ Brincou Clara, olhando fixamente para João, que desviava olhar enquanto seu coração pulava dentro do peito.

‘Ah! Desculpe-me! Eu nem sequer me apresentei, meu nome é João! Prazer em conhecê-la!’ Ele esticou o braço e apertou a mão de Clara, que sorriu timidamente.

‘Você até que é bem educado para um garoto com cara de bad boy!’ Brincou ela, deixando-o desconcertado.

‘Eu? Bad boy?’ Reclamou ele, surpreso com aquela afirmação.

Atrapalhando a conversa dos dois, a voz feminina bradou novamente: ‘João Maciel! Pode entrar agora!’

João se despediu de Clara e caminhou em direção à sala de testes. Suas pernas tremiam de tanto nervosismo naquele momento, porém, quando ele olhou para trás e viu o sorriso e o aceno de Clara, uma nuvem pareceu surgir embaixo de seus pés. Seu coração preocupado deu lugar a um coração vibrante e feliz.


Capítulo 2

Depois desse dia, João e Clara não se viram mais. Uma semana... Duas semanas... Três semanas... Até que os dois receberam um telefonema da agência de talentos. Ambos haviam sido selecionados para fazer parte do elenco da nova novela “teen” que seria transmitida pela emissora de TV mais famosa do país. João seria o protagonista masculino e Clara seria a melhor amiga da protagonista feminina. 

No primeiro dia de filmagens, João e Clara se viram pela segunda vez. No entanto, nem chegaram a se cumprimentar, pois João já estava rodeado de garotas enxeridas que queriam seu “autógrafo”. O enredo da novela se passaria numa escola, onde os jovens estudantes viveriam seus conflitos e romances. O personagem interpretado por João se apaixonaria por uma bela garota chamada Maria, e esta, por sua vez, era interpretada pela atriz e modelo Adriana Rocha, uma das mais famosas e belas atrizes da nova geração. Os outros garotos que faziam parte do elenco logo começaram a parabenizar João por ter conseguido o papel do personagem que “iria ter a sorte de beijar” Adriana Rocha. João ficou desconcertado, mas seu sorriso de satisfação em meio a toda aquela festinha acabou deixando Clara um pouco magoada.

Clara parecia fora do lugar. Enquanto todos riam e se divertiam, tentando formar casais entre os integrantes do elenco, ela permanecia isolada do grupo, apenas observando de longe, vendo João e Adriana Rocha sorrindo um para o outro, conversando baixo e trocando olhares de sedução.

Quando as gravações finalmente começaram, a sorte de Clara mudou. Ela, que ao contrário de todos ali, havia praticado suas falas por horas e horas, destacou-se com sua maravilhosa interpretação da personagem Viviane, uma garota alegre e extrovertida que sofria bullying de seus colegas de turma por estar um pouco acima do peso. Clara era tão boa atriz que tudo parecia ser real (bom, talvez ela já tivesse passado pela mesma situação de sua personagem). Seu profissionalismo e carisma, tanto nas cenas engraçadas quanto das cenas dramáticas, acabaram chamando a atenção do diretor e dos produtores da novela, que logo a elogiaram.

Enquanto João era bajulado pelo resto do elenco, Clara era bajulada pela Staff da novela. João tinha um pouco de inveja de Clara, por ela estar sendo reconhecida pelos profissionais veteranos. Clara, por sua vez, tinha inveja de João, por ele ser tão popular entre pessoas de sua idade.

Em certos momentos, os dois se cruzavam, olhavam um para o outro, mas não se falavam. No entanto, quando as filmagens do primeiro dia estavam terminando e todos já estavam indo embora, João alcançou Clara que saia apressada rumo ao ponto de ônibus.

‘Espera! Clara!’ Chamou ele, correndo atrás da garota, que fingiu não escutá-lo.

Ao alcança-la, João segurou o braço de Clara, impedindo-a de fugir.

‘O que você quer?’ Perguntou ela, sem olhar nos olhos do jovem rapaz.

‘Por que você não falou comigo? Não se lembra de mim? Ou por acaso está brava? Eu fiz alguma coisa que te magoou?’ Perguntou ele, e Clara queria muito responder que sim, que ele a havia magoado, mas ela engoliu sua raiva e apenas soltou seu braço das mãos de João, entrando rapidamente no ônibus que acabara de parar a sua frente.

João ficou parado do lado de fora do ônibus, observando a garota que se sentava perto da janela, mas nem sequer olhava de volta para ele. O ônibus seguiu rumo à estrada sul, deixando o rapaz confuso, sem saber o que pensar e o que fazer, apenas com o coração dolorido.


Capítulo 3

Os dias se passaram e as filmagens continuaram. João e Clara ainda não se falavam. João já havia tentado algumas vezes puxar conversa, mas Clara sempre o ignorava e quase sempre também estava rodeada pelos produtores da novela, que a cobriam de elogios e convidavam-na a participar de programas de televisão.

Um dia, os dois se depararam com um diálogo entre seus personagens. Eles deveriam conversar sobre Maria, e no meio dessa conversa, Viviane deveria confessar que estava apaixonada pelo namorado da sua melhor amiga. Todos ficaram extremamente surpresos quando as lágrimas de Clara começaram a cair durante essa cena. Tudo parecia tão real. Viviane confessava seus sentimentos para Marcos (interpretado por João). Ela dizia que escondia seu amor por ele, pois esse amor era impossível, já que ele era o namorado de sua melhor amiga, e, além disso, sua aparência era “diferente” dos padrões de beleza que todos estavam acostumados. 

Clara e João estavam tão envolvidos em seus próprios sentimentos que, de repente, João acabou esquecendo que aquilo era apenas uma cena de novela. Mesmo estando na frente de todo o elenco e toda a Staff, João não se conteve e a beijou. 

O choque foi tão grande que até mesmo o diretor achou que tudo fazia parte da cena. Só depois ele percebeu que não havia cena de beijo entre Marcos e Viviane no roteiro original. A química explosiva entre João e Clara era uma das coisas mais lindas de se ver na televisão. O diretor ficou louco e discutiu com o roteirista, tentando convencê-lo de inserir aquela cena de beijo na novela. No entanto, infelizmente o roteirista não aceitou, e o beijo acabou sendo cortado da cena.

Depois desses acontecimentos, João e Clara finalmente começaram a se dar bem. Na verdade, eles começaram a namorar. Os dois eram perfeitos um para o outro. Gostavam de ler os mesmos livros, ouvir as mesmas músicas, assistir aos mesmos filmes e a coisa que mais amavam fazer era atuar. Porém, o preconceito de João ainda não havia morrido. Ele nunca apresentava Clara para seus amigos, nem para seus pais. Continuava conversando despreocupadamente com outras atrizes e modelos, e às vezes até flertava com elas na frente de Clara.

Muitas pessoas não acreditavam quando Clara dizia ser a namorada de João. De vez em quando, ela até escutava comentários maldosos, do tipo: ‘Será que ela não se enxerga? Namorada do João, essa tampinha gorda? Poupe-me!’

As duas faces de João deixavam Clara apreensiva. Ao estar com seus amigos, João parecia outra pessoa, apenas preocupado com as aparências, sempre paquerando garotas bonitas, se gabando de ser popular. Porém, toda a tristeza e mágoa de Clara desapareciam quando ela estava a sós com ele. Quando nenhum amigo chato ou amiga modelo estava por perto, João era apenas um rapaz muito doce e carinhoso, extremamente apaixonado e cuidadoso com sua namorada.

Num dia qualquer de filmagens da novela, um entrevistador de um programa de fofocas apareceu para fazer perguntas indiscretas ao elenco. Os jovens atores e atrizes faziam de tudo para provocar escândalos, no intuito de se destacarem mais na mídia. O entrevistador perguntou a uma jovem atriz coadjuvante se ela sabia se alguém do elenco principal estava namorando. Rapidamente ela afirmou que João estava namorando, mas que não iria dizer quem era a garota “sortuda” que estava com ele.

Por causa disso, João foi abordado repentinamente pelo entrevistador, que fez questão de perguntar em alto e bom som quem era a garota que havia “ganhado na loteria” e estava namorando o rapaz mais desejado pelas garotas do país. Diante dessa pergunta, num momento em que todos estavam prestando atenção nele e uma enorme câmera estava focada em seu rosto, João respondeu:

‘Eu... Eu estou namorando... Adriana Rocha!’

Ao ouvir essas palavras, o mundo de Clara desabou. Como ele pôde fazer isso? Como ele pôde afirmar que estava namorando Adriana Rocha e não Clara Freitas? Por que não Clara Freitas? Só por que ela não tinha um corpo de modelo como Adriana Rocha? Só por que ela não era alta, magra e “perfeita”? Que tipo de perfeição é essa que só existe no externo? Adriana Rocha podia ser linda e magra, mas ela era uma garota esnobe, mesquinha e interesseira, só se preocupava com a aparência externa e nem sequer se esforçava para ser uma boa atriz. Então porque todos a amavam? Porque todos queriam estar perto dela e não de Clara?

O entrevistador pareceu muito empolgado com a resposta de João. Ele logo correu em direção à Adriana e perguntou para ela se era verdade o que rapaz acabara de dizer. Ela confirmou. Disse também que os dois estavam namorando desde os primeiros dias de filmagem da novela.

Clara estava em choque. Correu em direção ao banheiro e trancou-se lá. Começou a chorar descontroladamente. Ela sentia náuseas enquanto chorava. Vomitou algumas vezes e ficava cada vez mais fraca. 

Horas depois, podia-se ouvir um barulho ensurdecedor do lado de fora do banheiro. Alguns funcionários estavam tentando arrombar a porta trancada. Quando finalmente conseguiram abrir a porta, encontraram Clara desmaiada no chão, com os cabelos sujos de vômito. Dentro da ambulância, Clara abriu os olhos e viu uma imagem embaçada. Parecia ser a silhueta de João, porém, ela estava muito fraca e voltou a ficar inconsciente.

No hospital, Clara tomou soro na veia e se reidratou. Quando acordou, viu João adormecido na cadeira ao lado de sua cama, segurando sua mão. Sem querer acordá-lo, ela apenas desvencilhou-se de sua mão lentamente. Clara já não suportava mais a ideia de que ele a tocasse, seu coração estava tão ferido que ela não queria mais ver João na sua frente.

Alguns minutos depois, João acordou e surpreendeu-se ao olhar para a cama vazia. Onde estaria Clara? Ao perguntar a enfermeira, o garoto ficou sabendo que Clara já havia recebido alta e por isso tinha ido embora do hospital.


Capítulo 4

Depois de tentar ligar para ela várias vezes sem ser atendido, João foi até sua casa. A mãe de Clara foi direta e disse que a garota não queria receber nenhuma visita, principalmente se fosse ele. João ficou apenas do lado de fora da casa, olhando para a janela do quarto dela, como naquela vez em que Clara subiu para o ônibus e o deixou sozinho.

Algumas semanas se passaram e Clara finalmente voltou a frequentar os locais de filmagem da novela. João ficou extremamente feliz e aliviado ao vê-la atuando novamente. Tentou conversar, mas Clara apenas o ignorou, e desta vez parecia muito mais fria do que antes.

Enquanto o elenco fazia uma pausa, Clara foi sozinha até o camarim e João a seguiu, trancando a porta e deixando os dois a sós.

‘O que você pensa que está fazendo? Me deixa sair!’ Falou ela de maneira rude.

‘Não vai sair até conversar comigo!’ Insistiu ele, bloqueando a passagem.

‘Eu não tenho nada pra falar com você! Vai embora! Me deixa em paz!’ Clara estava muito alterada e seu corpo inteiro tremia de tanta raiva.

‘A Adriana e eu... Nós não temos nada um com outro! Aquilo tudo foi só um mentira para atrair os olhares da mídia!’ Argumentou João, e Clara sorriu de maneira sarcástica.

‘há... Entendi... Então você disse que estava namorando a Adriana por que desta forma você seria bem visto pela mídia! E por que não eu? Porque você não disse que estava namorando comigo? hein?’ Interrogou ela, demonstrando sua personalidade forte.

‘Porque... Porque... Isso iria te expor muito! Eu não queria que você se sentisse incomodada com todo o falatório desses programas de fofoca!’ Disse ele, e era impossível não perceber que só estava inventando uma desculpa.

‘Incomodada? Porque eu ficaria incomodada? Eu também sou atriz e quero aparecer na mídia!’ Disse Clara, e parecia extremamente furiosa.

‘Eu... Não foi isso que eu quis dizer... ’

‘Qual o problema? Você acha que eles vão falar mal de mim? Você acha que eles vão dizer que eu sou feia e gorda? Ou será que você está mais preocupado com o que vão dizer de você? Será que um atorzinho que ficou popular pelo seu rostinho bonito vai ser taxado de “mau gosto” por minha causa? É esse o seu medo? De ser mal visto por estar namorando uma gordinha? O que tem de mal em estar um pouco acima do peso? O que tem de mal em não ser alta e magricela como essas modelos idiotas?’

‘Não foi isso que eu pensei... ’

‘FOI SIM! ISSO ERA O QUE VOCÊ ESTAVA PENSANDO O TEMPO TODO! VOCÊ TEM VERGONHA DE MIM! NO FUNDO VOCÊ ACHA QUE EU NÃO SOU GAROTA PRA VOCÊ! QUE EU NÃO ESTOU A SUA ALTURA!’ 

‘Clara, por favor... ’

‘CALA A BOCA! Abre essa porta agora e me deixa sair!’

João acabou cedendo e abriu a porta. Clara saiu rapidamente, sem sequer olhar para trás. O rapaz continuou dentro do camarim, se recostou na parede e sentou-se no chão com os olhos cheios de lágrimas.


Capítulo 5

Horas, dias, semanas e meses se passaram. A novela já estava chegando ao fim e os últimos dias de filmagens se aproximavam. Clara e João só se falavam para ensaiar seus diálogos, e ainda assim de maneira fria. Semanas atrás, Clara havia oficializado seu namoro com Victor, um rapaz sete anos mais velho do que ela, filho do diretor da novela. João não estava namorando, apenas ficava com uma ou outra garota sem compromisso. No entanto, mesmo separados eles ainda se amavam, e era um amor tão intenso que doía na alma dos dois. Clara chorava quase todas as noites, e João, costumava se embebedar com os amigos e algumas vezes até usava drogas.

No último dia de filmagem, onde todo o elenco e staff se reuniram para uma grande festa de despedida, Clara e João pareciam muito deprimidos. Clara estava usando um lindo e longo vestido verde-claro, com os cabelos ondulados e brilhantes, e uma maquiagem impecável, que deixava seu rosto ainda mais belo do que já era. João, por sua vez, usava um terno azul marinho, seus cabelos encaracolados eram seu maior charme, somado ao sorriso e olhares mais sedutores que um jovem como ele poderia ter. Porém, toda essa beleza externa não refletia a alma dolorida que os dois partilhavam por causa de um amor persistente e sofrido.

Ambos estavam acompanhados por outras pessoas. Clara estava com seu namorado Victor, e João estava acompanhado de Adriana Rocha, que estava estonteantemente linda em seu vestido rosa. 

Adriana sabia muito bem de quem João gostava de verdade. No dia em que Clara foi achada desmaiada no banheiro, ela foi a única pessoa a prestar atenção na reação de João. Ao ver Clara sendo carregada numa maca, o rapaz ficou completamente em estado de choque. Aquela expressão cheia de desespero nunca saiu da mente de Adriana. João parecia louco, fora de si. Ele apenas correu em direção à ambulância e entrou dentro dela. Adriana ainda pôde ver quando ele segurou a mão de Clara, chorando, gritando seu nome e pedindo para que ela acordasse. No dia em que Clara e João discutiram no camarim, Adriana entrou depois que Clara saiu, e viu uma cena lamentável: João sentado no chão frio, chorando como um bebê. Não importava o quanto ela perguntasse o que havia acontecido, ele não respondia, apenas chorava. 

Essa era a última chance dos dois. E Adriana sabia disso. Desta vez, ela queria se redimir pelas suas mentiras.

Enquanto estava conversando com seu namorado, Clara recebeu um bilhete de um garçom. No bilhete estava escrito: Preciso conversar com você, é um assunto urgente. Encontre-me no jardim, perto das roseiras. Adriana.

A princípio Clara ficou confusa. Por que Adriana queria falar com ela? Que assunto urgente era esse? 

Como a curiosidade acabou tomando conta de si, ela resolveu atender ao pedido de sua rival. 

No entanto, quando Clara chegou ao jardim, no local combinado, teve uma surpresa: um rapaz de terno azul marinho a esperava.

‘João? O que está fazendo aqui?’ Perguntou Clara, e João mostrou-se surpreso também.

‘A Adriana me disse para vir aqui... Ela disse que tinha uma surpresa para mim... Então... Parece que você é a surpresa... ’

‘Que brincadeira de mau gosto... Estou voltando para a festa... ’ 

‘Espera!’ 

‘O que foi?’

‘Quero falar com você... Já faz tanto tempo que nós não conversamos... Eu sinto sua falta!’

‘É melhor eu ir embora’

‘Clara, por favor, eu te imploro! Fala comigo!’

Clara titubeia por um instante, seus olhos fitam João e então ela resolve ficar.

‘O que você quer conversar?’ Perguntou ela, sem mostrar muito interesse.

‘Como você está? Quero dizer... Você esta bem? Está feliz?’ Perguntou João, que no fundo queria mesmo era saber se o relacionamento dela com Victor estava indo bem.

‘Porque você quer tanto saber de mim? Eu sou tão importante assim pra você?’ Interrogou ela, incrédula.

‘Sim! É claro que sim! Só você não enxerga isso!’

Clara revelou uma expressão frágil e magoada.

‘Então, por que você me magoou tanto? Porque você me deixou com marcas que até hoje não querem cicatrizar?’ Perguntou ela, e seus olhos já estavam marejados.

‘Eu fui um idiota! Um egoísta mau caráter! Mas será que você não pode me perdoar?’ Implorou o rapaz.

‘Eu... Eu não sei se posso... ’ 

‘Por favor... Mesmo que nós não nos vejamos nunca mais, eu preciso que você me perdoe... ’ Insistiu João, e seus olhos também já estavam cheios de lágrimas. 

Ao ouvir as últimas palavras de João, os olhos de Clara refletiram uma mágoa avassaladora.

‘Então é isso que você quer? Que eu te liberte da sua culpa para que você possa ir embora mais tranquilo?’ Perguntou ela com um sorriso sarcástico no rosto e os olhos ainda lacrimejantes.

‘Não! Não foi isso que eu quis dizer! Porque você sempre distorce as minhas palavras? Porque você é sempre tão fria comigo?’

O coração de Clara estava prestes a explodir, ela olhou nos olhos de João e confessou:

‘Porque eu te amo! Eu te amo tanto e me odeio por isso! Todas as noites eu peço para Deus me levar desse mundo! Eu peço para a terra me engolir! Eu peço para desaparecer desse lugar por que eu já não aguento mais esse amor destrutivo dentro de mim!’ Clara soluçava e perdia o fôlego, e no momento seguinte, apenas chorava sem parar.

‘Eu sinto muito... Eu sinto muito... ’ João também chorava e soluçava.

Alguns minutos depois, enquanto os dois estavam sentados no meio do jardim observando as estrelas em silêncio, Clara desviou seu olhar para João e o fitou com uma expressão triste e devastada, que depois deu lugar a um sorriso amargo, e disse:

‘Vamos ser amigos!’

João apenas olhou para ela confuso.

‘Hã? Amigos?’ 

‘Sim, vamos ser amigos! É como deveria ser desde o começo da nossa história! Lembra-se de quando nós nos conhecemos na agência de talentos? Nós deveríamos ter ficado amigos naquele dia! Somente amigos!’

‘E porque você acha isso?’

‘Se fossemos amigos, nós nunca teríamos ferido um ao outro... Nós parecíamos estar tão próximos, nós tínhamos tanto em comum... Será que não podemos resgatar isso? Será que não podemos ter uma chance de começar tudo de novo?

João abaixou a cabeça para esconder sua expressão decepcionada. Porém, ele tomou sua decisão.

‘É isso mesmo que você quer?’ Perguntou ele, decidido.

‘Sim... É o que eu mais desejo... ’ Afirmou Clara.

‘Então vamos esquecer tudo o que aconteceu no passado! Hoje foi o último dia de filmagens da novela! Vamos fingir que estamos nos conhecendo hoje pela primeira vez neste jardim, certo?’

‘Tudo bem!’ Concordou Clara, com um sorriso de alívio no rosto. Então João começou a atuar:

‘Olá, você vem sempre aqui?’

Clara resolveu acompanhá-lo nesse “jogo”:

‘Eu? Bom... Não muito, hoje só estou aqui para apreciar a festa!’

‘Eu também! Então... Está gostando?’

‘Estou sim! Essa festa é muito bonita!’

‘Você é atriz?’

‘Sou sim! Como você adivinhou?’

‘Você me parece muito expressiva, por isso achei que você pudesse ser atriz... E, além disso, eu também sou ator!’

‘É mesmo! Que interessante! E qual o seu nome?’

‘Ah, me desculpe, eu nem me apresentei, me chamo João Maciel!’

‘Prazer em conhecê-lo João, o meu nome é Clara Freitas!’

‘O prazer é meu! E que bonito nome você tem!’

Os dois continuaram conversando por horas e horas. Ambos não viram o tempo passar e acabaram esquecendo seus pares na festa. Quando finalmente a festa acabou, Victor encontrou Clara no jardim e a levou para casa. João apenas acenou para ela com um sorriso triste no rosto. 

Desde esse dia, os dois se tornaram grandes amigos. Apenas amigos.

Três meses mais tarde, quando Clara terminou seu namoro com Victor, João achou que poderia ter alguma chance de reatar seu namoro com ela, no entanto, logo a garota encontrou um novo namorado, e João apenas esqueceu que um dia sonhou tê-la em seus braços novamente, e finalmente contentou-se em serem apenas amigos... Para sempre.


Capítulo 6

10 anos depois...

Os mesmos olhos, porém, com os cabelos de cor diferente. Uma expressão confiante e determinada no rosto se refletia no espelho enquanto ela sorria e se maquiava. Clara havia se tornado uma das atrizes mais prestigiadas do país. Ao longo de 10 anos, ela conquistou seu espaço, enfrentou preconceitos, ganhou prêmios por sua excepcional atuação e converteu-se num exemplo a ser seguido. Mesmo tendo passado por tempos difíceis, onde a depressão e a bulimia quase lhe tiraram a saúde física e mental, Clara superou todos os seus medos, todos os seus traumas e já não se sentia mais incomodada pelos comentários maldosos sobre o seu corpo que de vez em quando ainda ouvia. Clara prometeu a si mesma que não tentaria ser outra pessoa, que não faria cirurgias para se tornar magra e perfeita. Sua autoestima, que era tão baixa na época em que conhecera seu primeiro e único amor, foi retomada com todas as forças e a fez crescer como uma mulher bonita, sensual e confiante.

Clara Freitas estava trabalhando como protagonista de uma peça teatral cômica quando recebeu um telefonema de seu empresário. No telefonema, seu empresário disse que a atriz estava sendo convidada para ser a protagonista feminina da nova série de TV que se chamaria “True Love of Mine”, uma obra baseada num conto medieval, onde um príncipe, que saiu de sua terra natal quando ainda era criança, volta de viagem e acaba se apaixonando por sua nova serva, a partir daí, os dois passam por diversas situações românticas e perigosas, vivendo um amor proibido e enfrentando os maus olhares da sociedade da época.

Clara ficou completamente empolgada com esse convite. Imagine só! Ela seria a protagonista da primeira novela medieval exibida pela maior emissora de TV do país! A jovem estava tão feliz que resolveu ligar para seu melhor amigo e lhe contar a novidade.

‘Alô, João?’ 

‘Clara! É você? Há quanto tempo à gente não se fala! Andamos muito ocupados ultimamente, não é amiga?’

‘Eu sei! Mas... Eu tenho uma novidade incrível para lhe contar! Você vai morrer de tanta inveja!’

‘É mesmo? Eu vou? Se essa notícia é tão boa assim, então me deixa contar a minha novidade primeiro!’

‘Novidade? Então você também tem uma coisa boa para me contar?’ Clara ficou curiosa.

João fez um pequeno suspense por alguns segundos e depois soltou a bomba:

‘Eu vou participar de uma série de TV medieval! Isso não é incrível?’

Clara arregalou os olhos, e depois de algum tempo digerindo a notícia, perguntou sem acreditar:

‘Por acaso ela se chama... True Love of mine?’

‘Oh! Isso mesmo! Como você sabe?’ Perguntou João com uma voz radiante.

‘Acabaram de me chamar para ser a protagonista dessa série!’

João ficou em silêncio do outro lado telefone, até que finalmente se pronunciou:

‘O-o-o-o quê? Não acredito! Eu também fui chamado para ser o protagonista! Então isso significa que você vai ser a serva por quem eu vou me apaixonar?’

‘E você será o príncipe... Isso é inacreditável... ’ 

‘Depois de tanto tempo, nós vamos atuar juntos novamente!’ Exclamou João, parecendo muito animado.

‘Sim... Mas eu me sinto estranha agora... Quer dizer... A minha boa notícia na verdade também era a sua... ’ Gaguejou Clara, ainda confusa.

‘É verdade! Eu acho que estraguei sua surpresa!’

‘Tudo bem, na verdade, foi você que me surpreendeu... Ainda não consigo acreditar nisso... ‘

‘Preciso desligar agora, estou me preparando para filmar um comercial!’ Disse João.

‘Okay, eu também preciso desligar, todos estão me esperando para ensaiar as cenas da peça... ’

‘Então, até mais... Vamos nos ver daqui a alguns dias... ’

‘Sim, até logo! Fica bem! Beijos!’

Clara parecia em estado de transe quando desligou o celular. Porque isso estava acontecendo? Era mesmo real? Ela já havia sonhado tantas vezes em trabalhar com João novamente, e depois de tantos anos, seu sonho estava prestes a se realizar de uma forma tão inesperada. Mesmo que os dois tivessem mantido contato durante os 10 anos, mesmo que eles sempre saíssem juntos para conversar sobre o trabalho e até mesmo sobre suas vidas pessoais e amorosas, naquele momento, Clara sentia seu coração vibrar de tanta alegria. Finalmente eles poderiam passar o dia inteiro juntos nas gravações, teriam oportunidade de conversar mais, estar próximos um do outro e até mesmo agir como um casal apaixonado. Será que João também estava feliz com isso?

Do outro lado da linha, ao desligar o telefone, João pulou de felicidade! Ele se jogou em sua cama de braços abertos, com um sorriso de orelha a orelha no rosto.

‘Nós vamos atuar juntos de novo! Nós vamos ser um casal! UM CASAL!’ Exclamou ele, rolando na cama de um lado para outro. 

Continua...



Antes de me despedir, deixo com vocês a música que eu escolhi para essa fanfic. Ela será a trilha sonora da série medieval fictícia "True love of mine", ou seja, será o tema de Clara e João como os personagens principais dessa novela. 


Talvez vocês estejam se perguntando... Porque eu resolvi escrever sobre dois atores e dentro dessa historia inserir outra história com tema medieval?

Eu respondo: Não faço a mínima ideia. 

Eu estava sem inspiração para escrever e de repente me surgiu essa ideia na cabeça, ou seja, as coisas foram aparecendo e eu simplesmente não as ignorei.

A história deveria ser sobre dois atores que se apaixonaram mas tiveram dificuldades para ficar juntos por causa de preconceitos, egoísmo e mágoas do passado. No entanto, a história medieval surgiu enquanto eu estava pesquisando um nome para a fanfic. Então eu resolvi aproveitar a deixa para inserir esse contexto, ainda não faço a mínima ideia de onde isso vai me levar... Só espero que os leitores não se decepcionem. 


Até mais pessoal! 



sexta-feira, 19 de abril de 2013

Sete dias para viver - fanfic especial de aniversário

Annyeong haseyo!
Olá todo mundo! Como estão se sentindo hoje? Eu estou muito contente! Por que hoje o blog Coração Feroz completa um aninho de vida! Ebbbaaaaa! \o/\o/\o/\o/\o/\o/\o/\o/\o/

Vamos comemorar!




Quando eu criei este blog, tive receio que ele não durasse muito tempo, mas olha só, já estamos com um ano de vida! Ainda nem acredito! 

Bom, e como vocês devem ter lido no título dessa postagem, eu preparei algo muito especial em comemoração ao aniversário do blog. O presente é uma fanfic original chamada Sete dias para viver

Atualmente, estou lendo um mangá chamado Boku no Hatsukoi wo Kimi ni Sasagu, a temática dele me inspirou a fazer essa fanfic (lembrando que é uma fanfic ORIGINAL, ela NÃO é baseada nesse mangá, apenas me inspirei através dele).

Meu plano era terminar a fanfic até o dia de hoje e postar todos os capítulos aqui de uma única vez (pois os capítulos dela são curtos). Porém, infelizmente, o tempo que eu tinha disponível para escrevê-la não foi suficiente para que eu pudesse terminá-la. Por isso, estou postando hoje apenas os seis primeiros capítulos. O restante da fanfic eu postarei quando terminar de escrevê-la.

Bem, sem mais delongas, vamos ao que interessa! O presente de aniversário!
Espero que gostem! Logo abaixo, vocês verão a capa da fanfic que eu mesma fiz. 

Uma curiosidade: Essa fanfic foi escrita com a intenção de fazer um mangá baseado nela (ou seja, ela é um roteiro para mangá), porém, como eu ainda não tenho capacidade de fazer um mangá, então me contentarei apenas em escrever a fanfic rsrs

Gênero: Drama, romance, comédia
Classificação indicativa: livre


Sete dias para viver

Sete dias para viver


Capítulo 1

Eram nove horas da manhã do dia 19 de abril de 2013. O frescor da primavera entrava pela janela do consultório médico, trazendo consigo o aroma das flores, que desabrochavam dia após dia, proporcionando uma bela sensação de relaxamento. Eu, que estava sentada numa poltrona macia, de frente para o Dr. Collor, sentia-me anestesiada, desnorteada, completamente sem chão. Era como se eu não estivesse ali, ou talvez estivesse, só que fora do meu corpo. O médico, sentado atrás de sua mesa, encarava-me com uma expressão séria.

-Ontem, às cinco e meia da tarde, a senhorita Kate Stuart foi trazida numa ambulância para esse hospital, confere? –perguntou o Dr. James Collor, forçando a vista por trás de seus óculos pequenos, enquanto analisava meu prontuário.

-Sim... –confirmei, olhando distraída para a janela que estava à minha esquerda, e sem nenhum sentimento na voz.

Depois de pigarrear, ele continuou:

-Você sofreu um acidente de trabalho e inalou uma toxina muito perigosa, confere? –sua voz parecia mais séria a cada palavra, o que me fez voltar aos meus sentidos e virar o rosto para encará-lo.

-Sim, eu sou bioquímica e trabalho num laboratório de pesquisa onde desenvolvemos novos fármacos. Aconteceu um vazamento de resíduos tóxicos e eu acabei inalando uma substância venenosa. –respondi de forma natural, porém, aquela conversa estava me deixando com um mau pressentimento.

-Então você está ciente de que a substância que você inalou é letal para o ser humano? –ele prosseguiu com o interrogatório, e meu coração acelerava a cada segundo.

-Sim... Na verdade, eu achava que a essa altura eu já estaria morta, mas como milagre, eu estou bem... Estou bem, não estou? –minha voz falhou nesse momento, um nó havia se formado em minha garganta e o mau pressentimento aumentava.

-Senhorita Stuart, nós fizemos tudo que estava ao nosso alcance: limpeza das vias respiratórias, transfusão de sangue, hemodiálise... Porém, uma pequena quantidade da toxina ainda permanece em seu organismo...

Era impossível controlar minhas mãos, que tremiam desesperadamente e suavam frio. Tentei entrelaçar os dedos e apertá-los, mas o tremor insistia em continuar.

-E o que isso quer dizer? Vou ficar com alguma sequela? –perguntei, já com uma voz de choro.

-Senhorita Stuart, você como uma conhecedora da substância que inalou, sabe que mesmo em pequena quantidade, ela ainda é letal, não sabe?

-Mas eu me sinto perfeitamente bem!- insisti, engolindo o choro e sorrindo falsamente.

-É só questão de tempo até que a toxina atravesse as barreiras de suas células e comece a destruí-las... –falou o médico, e desta vez foi ele que entrelaçou os dedos parecendo apreensivo, ao mesmo tempo em que seus cotovelos se apoiavam sobre a mesa do consultório.

-NÃO! NÃO PODE SER! EU ESTOU BEM! EU ESTOU BEM! –falei em voz alta, tentando convencer não só o doutor, mas principalmente a mim mesma, pois minha confiança fraquejava naquele momento.

-Senhorita Stuart, se acalme, por favor! Você precisa ser forte! – ralhou Dr. Collor, e ao olhar para mim, sua expressão era de pena, algo que me deixou irritada e ao mesmo tempo completamente desolada.

-O doutor não entende? É a minha vida! O doutor está querendo dizer que a qualquer momento eu vou morrer? –perguntei, ainda não acreditando que aquilo era real.

-Em alguns dias... –ele respondeu secamente.

-Hã? Está falando sério? Como...? Quanto tempo... Quanto tempo eu tenho de vida? –perguntei com a voz trêmula e os olhos cheios de lágrimas.

Dr. Collor levou uma das mãos à cabeça, apertando alguns fios de cabelo entre seus dedos. Logo depois, respirou fundo e disse:

- No máximo sete dias...

Após essas quatro palavras, eu não pude ouvir mais nada. Tudo parecia girar ao meu redor. O mundo não tinha mais cor, as lágrimas inundavam meus olhos, escorriam pelo meu rosto e caíam sobre as minhas mãos trêmulas. Dr. Collor tentava me consolar, mas a única coisa que eu ainda podia sentir naquele momento era o frescor da primavera que entrava pela janela. Aquele maldito frescor da primavera, que trazia consigo o cheiro das flores que desabrochavam a cada dia.



Capítulo 2

Sete dias. Apenas sete dias de vida. Depois de chorar descontroladamente pela décima vez, inundando os lençóis da minha cama, fui capaz de me levantar e caminhar até o espelho da minha penteadeira. Encarei aquela pessoa que estava diante de mim. Uma jovem mulher de 25 anos de idade, cabelos longos e castanhos, olhos verdes e pele branca, que passou a vida inteira estudando e pensando nas conquistas do futuro. Uma cena surgiu em minha mente. Há três anos, quando meus pais foram à minha formatura, orgulhosos, eles gritaram aos quatro ventos que sua filha era a pessoa mais inteligente da família, e que ela tinha um grande futuro pela frente.

Que ironia do destino. Onde está o maldito futuro agora?

As lágrimas voltaram a brotar nos olhos daquela jovem mulher que se via diante do espelho.

Enquanto enxugava meu rosto com as costas da mão, percebi o quanto meus olhos estavam inchados e vermelhos, meus cabelos despenteados, e o meu rosto sem vida. Minha aparência era totalmente deplorável.

Foi então que resolvi perguntar para mim mesma:

-Você realmente vai passar os últimos dias que lhe restam de vida assim, deitada numa cama, chorando?

A maioria das pessoas mais velhas costuma dizer que o melhor da vida está na simplicidade, nas pequenas coisas que não têm muito valor material. Outras preferem admitir que o dinheiro compra tudo, até mesmo a felicidade. Talvez as duas tenham um pouco de razão. Para realizar todos os sonhos, uma pessoa precisa tanto de coisas que custam caro como coisas insignificantes e sem valor. Nosso destino é uma faca de dois gumes, e os nossos desejos também, pois a ambição é essencial para a evolução. Passei minha vida inteira estudando para conseguir um bom emprego e viver uma vida confortável, porém, tudo o que eu conseguia pensar naquele instante, a sete dias da minha morte, era que antes de morrer eu precisava sentir o gosto de algodão doce, ir ao parque de diversões mais próximo e ficar descalça na praia, molhando meus pés com a água do mar.

Por que essas coisas tão insignificantes são importantes para mim nesse momento? Será que eu enlouqueci? Ou apenas estou tentando fazer algo realmente prazeroso em minha vida antes que ela seja tirada de mim? Realmente não sei. Não tenho nenhuma resposta, só sei que é isso o que o meu coração pede, e pela primeira vez, estou escutando-o.

Abri a gaveta da penteadeira, peguei um pequeno bloco de papel e uma caneta. Comecei a escrever rapidamente:

Lista de desejos
1 - Comer algodão doce
2 - Andar pela praia e molhar os pés com água do mar
3 - Ir ao parque de diversões e brincar em todos os brinquedos
4 - Fazer compras sem se preocupar com o limite do cartão de crédito
...

A lista já estava grande o suficiente quando eu olhei para o relógio e percebi que já estava quase anoitecendo. Foi então que resolvi parar de escrever e começar os preparativos para o dia seguinte, o dia em que começaria minha grande aventura.



Capítulo 3

O despertador tocou às seis horas da manhã. Levantei da cama sem reclamar, tomei um bom banho e pus um vestido leve, com estampa florida e babados, o único vestido que eu tinha desse modelo, e que eu só havia usado uma única vez quando saí de férias da faculdade há três anos. Peguei a mochila que eu havia preparado no dia anterior e calcei uma sapatilha azul. Meus cabelos, que eram sempre mantidos presos num coque, desta vez resolvi deixá-los caídos sobre os ombros. Depois de tomar café da manhã, saí de casa rumo à minha jornada.

Caminhei pelas ruas observando cada detalhe da paisagem. As casas de diferentes cores e tamanhos, as lojas, os supermercados, as árvores e arbustos, os automóveis apressados, o céu azul e as nuvens brancas que formavam desenhos de todos os tipos. O vento soprava de maneira suave e acariciava meu rosto, e as pessoas andavam em todas as direções. Para onde será que elas estão indo? Pensei.

Finalmente cheguei ao meu destino. Tirei a lista do bolso e li:

5 - Passear num jardim cheio de flores perfumadas

Em minha frente lá estava ele, majestoso. Sempre que eu saía de casa rumo ao trabalho dirigindo meu carro, eu o via. E mesmo que nunca tivesse realmente prestado atenção nele, meu coração ansiava em um dia poder vê-lo de perto, sentir o cheiro das flores e caminhar entre elas. Certamente era um maravilhoso jardim.

Abri o portão que separava “o mundo real” daquele maravilhoso sonho e entrei. Era a primeira vez que eu entrava num jardim, e ao olhar para aquele lugar de perto, era muito mais bonito do que eu havia imaginado. Era como um mundo mágico e belo, bem diferente do trânsito, dos prédios e dos laboratórios que eu estava acostumada a ver.

Gardênias, margaridas, jasmins e copos de leite.  Rosas, girassóis, lírios e camélias. Ao passar por cada uma delas, fui sentindo seus perfumes, suas texturas e apreciando suas cores vivas. Tocar em suas pétalas e folhas era como se eu já tivesse morrido e ido para o céu.

Continuei caminhando lentamente por entre as flores, e parecia não haver mais ninguém naquele jardim além de mim. Porém, após algum tempo de caminhada, avistei alguém ao longe. Um rapaz. Ele era alto, tinha os cabelos negros e estava tirando fotos do jardim com uma câmera profissional. Mantinha-se completamente imerso no que fazia e por isso nem percebeu minha presença. Fui me aproximando dele sorrateiramente, porém, mesmo estando bem perto, ainda não podia ver seu rosto, pois a câmera ficava na altura de seus olhos.

-Pelo jeito como você maneja essa câmera profissional, deve ser fotógrafo, não é? –perguntei, e ele ficou bastante surpreso ao ouvir minha voz, levantando a cabeça imediatamente e encarando-me como se eu fosse uma intrusa.

-Quem é você? Por que está aqui? Esse jardim foi alugado por mim e deveria ficar vazio por uma hora até que eu terminasse de tirar as fotos! –ele respondeu de forma rude.

-Desculpe-me, eu não sabia... –respondi meio desconsertada, e ao mesmo tempo, um pouco fascinada pelos belos olhos azuis daquele rapaz. Ele era bonito, definitivamente muito bonito.

Uma atmosfera constrangedora pairava entre nós, e o fotógrafo permaneceu encarando-me com uma expressão irritada no rosto.
-Então, será que você pode ir embora para que eu possa continuar tirando minhas fotos em paz? –ele insistiu de maneira mal-educada.

-Não. –respondi secamente, apreciando toda aquela provocação.

-Hã? Não vai sair? Mas eu aluguei esse lugar! Ele me pertence por mais... –ele espiou as horas na câmera. –30 minutos!

Fitei seus olhos azuis por alguns segundos e depois respondi:

-Não me importa! Eu vou continuar aqui e, já que você também quer continuar tirando suas fotos, pode fazer isso, ninguém está lhe impedindo! Fique tranquilo, eu vou ficar longe da sua câmera!
Minhas palavras só fizeram aumentar a irritação dele.

-Você é louca? Eu já disse pra sair! Esse lugar é privado! SAIA! Volte daqui a 30 minutos!

Cruzei os braços, cravei os sapatos no chão e fiz careta, respondendo de forma segura:

-Não vou sair!

O rapaz encarou-me com fogo nos olhos e resmungou por algum tempo até que finalmente se deu por vencido. Ele se afastou de mim e voltou a tirar fotos do outro lado do jardim, onde havia muitas gardênias.

-Idiota! –resmunguei irritada.

Observando o quanto ele estava concentrado em seu trabalho e fazia tudo de forma muito dedicada e profissional, me veio na mente uma ideia maluca, uma ideia que certamente eu colocaria em prática, já que no meu caso, eu não tinha mais nada a perder.

Fui me aproximando do fotógrafo novamente, de forma que ele não percebesse minha presença, e isso não era difícil de se fazer, pois ele estava muito compenetrado em sua tarefa e parecia não se preocupar com nada em seu redor além das flores.

-Com licença... –falei, e ele simplesmente fingiu que não me ouvia.

Tentei ficar na frente da câmera e impedir que ele pudesse continuar tirando fotos das flores, porém, ele simplesmente ignorava-me e desviava-se de mim.

-Ei! Não pode me ignorar! Olhe para mim! –insisti, e a expressão dele já estava furiosa.

-Não foi você mesma que disse que não iria me atrapalhar? Por que está me impedindo de tirar fotos? Que irritante! –disse ele, com uma voz enérgica e cheia de raiva.

-Tenho uma proposta a lhe fazer... –respondi com um sorriso malandro no rosto, e ele me encarou com uma expressão confusa.
-Proposta? –ele perguntou, mostrando-se curioso.


Capítulo 4

O fotógrafo mantinha seus olhos arregalados e cravados em mim, boquiaberto, com uma expressão incrédula no rosto e a câmera pendurada em seu pescoço.

-Está falando sério? Sério mesmo? –ele perguntou.

-Sim, é por isso que antes de começar a cumprir todos os desejos que eu escrevi na minha lista, decidi que era necessário registrar os meus últimos dias de vida, pois desta forma, quando eu morresse, meus pais poderiam guardar uma boa lembrança de mim e, além disso, minha existência não seria esquecida.

O rapaz continuou me encarando por alguns segundos até que, de repente, soltou uma risada.

-HAHAHAHAHA! Não acredito que caí nessa! Por um momento eu até acreditei que fosse verdade! Como eu sou fácil de enganar! HAHAHAHAHAHA!

Tirei de dentro da minha mochila uma cópia do meu prontuário médico e mostrei para ele.

-Aqui, a prova de que eu não estou mentindo... -falei, enquanto estendia o papel em sua direção.

-O que é isso? –ele perguntou, observando o documento com curiosidade.

-Leia! –ordenei, já ficando sem paciência com toda aquela situação.

Enquanto ele lia meu prontuário, aos poucos o seu sorriso de deboche deu lugar a uma expressão séria e cheia de pena.

-Acidente de trabalho... Você inalou uma toxina letal... –disse ele com uma voz trêmula.

-Foi o que eu acabei de dizer a dois minutos atrás! Mas pelo visto, eu precisei mostrar essa porcaria de papel pra você acreditar em mim! - falei irritada, tirando o documento das mãos dele com brutalidade e guardando-o de volta em minha mochila.

-Desculpe... Sinto-me muito mal por ter rido de uma coisa tão séria... Perdoe-me, por favor... –ele abaixou a cabeça, parecendo abalado.

-Eu vou te perdoar, mas com uma condição...

-Condição? Que condição? –ele levantou a cabeça, voltando a olhar para mim com sua expressão de curiosidade.

-Você tem que aceitar a minha proposta! –respondi, com um olhar de chantagista.

-Então você quer que eu acompanhe você e tire fotos suas enquanto você cumpre seus desejos antes de morrer?

-Isso mesmo! –respondi sorridente. –Eu pago bem! –completei.

Os dados foram lançados. Só resta saber se o número da sorte estará ao meu lado.

Depois de pensar por alguns minutos, coçar a cabeça e pôr a mão no queixo, o fotógrafo resolveu aceitar minha proposta, pois segundo ele, negar o pedido de uma pessoa que só tinha sete dias de vida poderia lhe render sete anos de azar.

-A propósito, qual é o seu nome? –perguntei, dando-me conta de que depois de toda aquela discussão, eu ainda nem sabia o nome dele.

-Brian... Brian Wenders. –disse ele, estendendo sua mão. –E o seu?

-Kate Stuart, muito prazer. –respondi, dando-lhe um aperto de mão e olhando no fundo de seus olhos azuis. Por algum motivo, ele sorriu, e o seu sorriso foi capaz de me contagiar, fazendo-me sorrir também.

Os dados foram lançados. Só resta saber se o número da sorte estará ao meu lado. Pelo visto, esses últimos sete dias serão muito mais interessantes do que eu possa imaginar.


Capítulo 5

Caminhávamos lado a lado, sempre a passos iguais. Ele olhava para mim o tempo todo, porém, toda vez que eu o encarava de volta, ele virava o rosto, como se fugisse do encontro de nossos olhos. Tirei a lista da mochila para decidir qual seria o próximo desejo a ser cumprido.

-Tem alguma venda de algodão doce por aqui? –perguntei, enquanto lia os desejos da lista.

-Hã? Algodão doce? Acho que não, por quê? –ele perguntou, e esticou o pescoço para espiar o papel que eu estava segurando.

-Nada... –respondi de maneira vaga, sem prestar atenção na reação dele. Porém, tomei um susto quando ele se aproximou de mim e roubou a lista de minhas mãos.

-Essa é a tal lista de desejos? O que têm aqui? –disse ele, enquanto começava a ler o que havia escrito no papel.

-Ei! Devolva! Não pode ler! –falei exaltada, tentando pegar a lista de volta, mas sem sucesso, pois Brian era muito mais alto e mais forte do que eu. –Devolva-me! É minha!

-Qual o problema em lê-la? Eu vou ficar sabendo de tudo quando tirar as fotos! –argumentou ele, enquanto mantinha a lista bem acima de sua cabeça para que eu não fosse capaz de alcança-la.

-Eu não quero que você leia! Devolva essa lista agora! –grasnei aborrecida.

Enquanto eu lutava para reaver minha lista, Brian continuava lendo-a.

-Comer algodão doce? Ir ao parque de diversões e brincar em todos os brinquedos? Dançar uma valsa com um lindo vestido de princesa?– perguntou ele, contendo-se para não rir.

-Ah! Isso é vergonhoso! Pare de rir! – falei constrangida.

-Dançar na chuva? Que tipos de desejos infantis são esses? –ele continuou, e desta vez, começou a gargalhar.

Num movimento repentino e brusco, arranquei a lista da mão de Brian, e ele pareceu perplexo com minha agressividade.

-Pare! Pare de rir! Você não entende! Eu passei minha infância inteira estudando, sou filha única e meus pais nunca me deixaram sair com meus amigos! Eles nunca me deixaram fazer nada além de estudar! –respondi com a voz trêmula e os olhos marejados de lágrimas.

Brian olhou para mim com uma expressão de pena.

-Sério que você não teve infância? Isso é deprimente... Sinto muito por rir dos seus desejos, prometo que não farei mais isso... Desculpe.

-Tudo bem... –respondi ainda constrangida.

Caminhamos por mais alguns minutos em silêncio, até que eu avistei um Shopping.

-Podemos entrar ali e cumprir meu desejo número 4? –perguntei, entusiasmada.

-E o que é exatamente esse desejo?- replicou Brian, com um mau pressentimento.

-Espere e verá! –falei com um sorriso malandro.

Ao entrar naquele lugar fortemente iluminado, com o piso brilhante e rodeado de lojas de todos os tipos, minha mente deu voltas de tanta empolgação. Era o momento de fazer o que quase todas as mulheres amam: Compras!

Corri em direção à primeira loja que vi, e lá tinham muitos vestidos, bolsas e sapatos.

-Aqui é o paraíso! –falei com uma voz cheia de entusiasmo.

-Ah não, compras não! –resmungou Brian.

As reclamações de Brian pararam no mesmo instante em que eu experimentei o primeiro vestido. Por algum motivo, logo ele se empolgou com a “brincadeira” e, enquanto eu experimentava todas as roupas e sapatos da loja, ele também opinava sobre meu visual, tirava fotos e me observava da cabeça aos pés, sempre sorrindo e sendo bastante sincero ao dizer quais roupas ficavam melhores em mim. Desde quando uma pessoa mal-educada como ele se tornou um rapaz tão cavalheiro? Isso me deixou um pouco cismada, porém, não havia tempo para pensar nessas coisas.

Depois de passar mais de quatro horas na loja e comprar dezenas de sapatos, vestidos, blusas, calças e saias, além de algumas joias, maquiagem e outras coisas inúteis, finalmente saímos do Shopping carregando inúmeras sacolas.

-Não vamos passar o dia todo carregando essas coisas, vamos? –perguntou Brian, tentando equilibrar-se no meio de tantas sacolas.

-Não se preocupe, eu já chamei o serviço de entrega, eles devem estar chegando a qualquer momento e irão deixar tudo isso na portaria do condomínio onde eu moro. –respondi, ao mesmo tempo em que derrubava cinco sacolas no chão. –Oh Droga! –reclamei.

-O que vai fazer com todas essas roupas? Quer dizer, você só tem sete dias...

-Eu sei... Quando eu morrer, provavelmente todas elas serão devolvidas.

Depois que o serviço de entrega chegou, Brian e eu continuamos nossa caminhada.

-Já é quase meio dia, então... Devemos ir comer alguma coisa? –disse Brian.

-Claro... Que tal pizza? –perguntei, com aquele sorriso malandro no rosto.

-Pizza? Tem certeza? – perguntou Brian.

-Esse é meu desejo número 10! –respondi.

-Sério? Ainda estou tentando me acostumar com esses seus desejos esquisitos. –disse ele. -Mas... Não tem nenhuma pizzaria perto daqui!

-Não se preocupe, eu dou um jeito nisso! –falei, enquanto caminhava para fora da calçada e esticava o braço. –Táxi! –chamei, e logo um carro parou em minha frente.

-Ei!Espere por mim! –gritou Brian, e logo correu em direção ao táxi, entrando nele em seguida. –Aonde vamos? –perguntou ele, cismado.

-Eu sei de um ótimo lugar onde podemos comer pizza! E ele sempre está aberto ao meio dia!

-Lá vamos nós de novo! –resmungou o fotógrafo, soltando um suspiro.


Capítulo 6

-É esse o lugar? – perguntou Brian, com uma expressão enojada no rosto.

Estávamos em uma lanchonete infantil, onde diversas crianças costumavam frequentar, e nela havia um grande espaço para recreação, cheio de palhaços e brinquedos.

-Ah não, eu não vou entrar aí, está cheio de crianças! –disse Brian, enquanto já se preparava para fugir.

-É claro que vai! Volte aqui! –falei, segurando a gola da camisa dele, impedindo-o de correr de volta para o táxi.

Dez minutos depois, lá estávamos nós, sentados à mesa e rodeados por crianças, todos comendo pizza e se lambuzando, exceto Brian, que estava de cara feia.

-Hum... Não vai comer? –perguntei, enquanto lambia os dedos das mãos, que estavam sujos de molho de carne e ketchup. Brian apenas virou o rosto na direção oposta, ignorando-me. –Não sabe o que tá perdendo! –resmunguei.

- Olha, eu já tirei todas as fotos que você me pediu, podemos ir embora? –disse ele, zangado.

-Espere aqui, eu vou brincar um pouco com as crianças na sala de recreação! –falei apressada, e logo me levantei da cadeira, sendo levada pelas crianças, que seguravam firmemente minhas mãos.

-Ei! Não! Espere! Por que vai fazer isso? Vamos embora logo! –grasnou Brian, de forma impaciente.

-Esse é meu desejo número treze! –respondi, enquanto atravessava a lanchonete rumo à sala de recreação, de mãos dadas com as crianças.

-Como? Quem no mundo deseja brincar com um monte de pirralhos numa lanchonete? Aishh! –resmungou Brian, enquanto me via adentrando a sala de recreação.

As crianças disputavam minha atenção. Enquanto os garotos queriam que eu jogasse futebol com eles, as garotas queriam que eu brincasse de casinha. No fim das contas, acabamos desistindo dessas brincadeiras e começamos a pular e dançar todos juntos. O sorriso delas me contagiava, pois aquela pureza em seus rostos presenteava-me com uma alegria inexplicável, que se refletia em forma de risada, pulos, caretas e rodopios.

Brian, por curiosidade ou por medo de ficar sozinho em companhia de tantas crianças na entrada da lanchonete, resolveu ir atrás de mim. Ao se aproximar da porta da sala de recreação, era fácil identificar uma mulher adulta entre os meninos e meninas. Ele não entrou, apenas ficou observando de longe, e por um breve momento, pude ver um sorriso sincero esboçado em sua face. Um sorriso diferente de todos os que eu já tinha visto antes. Brian parecia feliz ao me observar, ou talvez ele estivesse apenas zombando de mim, rindo do meu jeito bobo, de minhas atitudes infantis. Mas... Aquele sorriso era tão puro, e seus olhos brilhavam de um jeito encantador. Quando percebeu que meus olhos também o observavam, ele se escondeu atrás da porta.

-O que está fazendo escondido aí? –falei em voz alta. –Esqueceu-se do seu trabalho? Precisa vir aqui e tirar fotos! Venha logo! Não fique se escondendo!

Brian esgueirou sua cabeça para fora de seu esconderijo e olhou para mim de um jeito constrangido. Logo depois, voltou a fazer aquela expressão enojada para as crianças e se aproximou, levantando a câmera na atura dos olhos e tirando diversas fotos.

Já eram quase duas horas da tarde quando saímos daquela lanchonete.  Brian espreguiçava-se e parecia muito cansado.

-Tem certeza que pode fazer isso? –perguntei, encarando-o com uma expressão preocupada.

-Foi isso o que combinamos, não foi? Eu irei acompanhá-la nesses sete dias, e mesmo que seja cansativo, não vou reclamar, afinal, você está me pagando para tirar as fotos... –ele respondeu, tentando me tranquilizar.

-E os seus outros compromissos durante a semana?

-Eu cancelei todos! –respondeu Brian, de forma segura. – Agora, me diz uma coisa: Como você consegue pular e dançar por tanto tempo sem ficar cansada? Se fosse eu, estaria morto agora!

-Mas... Eu também estou cansada...

-Sério? Pois não parece! –retrucou ele de forma irônica.

Encarei Brian e mostrei-lhe um sorriso melancólico, respondendo:

-Acha mesmo que uma pessoa que só tem sete dias de vida se preocuparia com o próprio cansaço? Você acha que eu deixaria de aproveitar cada minuto que tenho só por que estou cansada?

Brian me encarou de volta, surpreendido.

-Tem razão, desculpe-me, às vezes eu esqueço que você vai... –disse ele, e não completou a frase, apenas desviou o olhar, que parecia cheio de pena.

-Tudo bem... É melhor descansar um pouco!

-Hã? Mas você acabou de dizer que...

-Estou indo para casa agora – falei, enquanto abria o bolso da mochila, retirando um pequeno pedaço de papel. –Nos encontramos daqui a quatro horas nesse endereço! –completei, entregando o papel a ele.

 -Hã? Salão Fest Club? Que lugar é esse? –perguntou Brian, lendo o que estava escrito no papel. –E, além do mais, quatro horas de descanso não é muito tempo? Você mesma disse que queria aproveitar cada minuto...

-Quem disse que eu vou descansar durante essas quatro horas?

-Mas... Eu pensei...

-Vá para casa e descanse um pouco, eu cuidarei dos preparativos... –falei de um jeito misterioso. -E não se esqueça de me encontrar as seis em ponto no Salão Fest Club... Ah! E mais uma coisa, vá de terno e sapatos sociais!

-Terno? Sapatos sociais? –perguntou Brian, confuso.

-E dê um jeito nesses cabelos! –completei.

-O que tem de errado com os meus cabelos? –perguntou Brian irritado, colocando as mãos sobre a cabeça.

Ignorei suas perguntas e novamente estiquei o braço para chamar um táxi. Rapidamente um automóvel parou em minha frente.

–Ei! Espera aí! Ei, me explica isso direito! Por que eu tenho que ir de terno? –grasnou ele, enquanto observava-me entrar apressada no táxi. -Droga! Desse jeito sou eu que vou acabar morrendo nesses sete dias!

O táxi já estava longe quando Brian finalmente parou de resmungar, e depois disso, ele resolveu tomar o caminho de casa, andando lentamente com as mãos nos bolsos, soltando suspiros, com o vento batendo em seu rosto e os cabelos esvoaçantes.